Foi naquela noite de neve e frio que a conheci. Eu era
jovem, estava em meus plenos 17 anos. Família... Fui deserdado por não ser o
que eles queriam nem pensar da mesma forma. Não tinha nada além da roupa que vestia, um pouco de dinheiro
(muito menos do que eu necessitava para me restabelecer) e um relógio de bolso.
Caminhava à toa pelas ruas mal iluminadas de uma cidade que não era minha, nem sequer era próxima, e não conhecia nada por lá. Os passos estavam cada vez mais penosos,
parecia que eu carregava duzentos quilos nas costas, mas este fardo imaginário
era apenas fadiga física e mental, a neve não perdoa ninguém. Não restava nada além de desistir, mas o
destino decidiu me ajudar.
Escutei vozes nervosas e agressivas, logo encontrei dois
homens tentando invadir uma casa velha e humilde. Eles brigavam um com o outro
enquanto tentavam abrir a porta da frente à chutes pesados. Primeiro relutei, mas logo algo me
possuiu, peguei um pedaço de madeira que encontrei encostado num poste e
caminhei até o que estava mais perto com ajuda da neve que abafou todos os meus passos.
Trêmulo, tomei ar e o acertei na nuca com
minha arma improvisada. Ele caiu e o chutei algumas vezes, até que minha mente me alertou do outro homem que havia me esquecido por alguns instantes. A madeira
havia-se quebrado e não sabia como iria derrubar o outro, e ele acabara me acertando em um dos olhos. Caí para trás pois não estava preparado para me defender e fiquei paralisado enquanto via que o assaltante retirava algo de
dentro do casado. Uma faca de cozinha, senti a minha garganta secar. Fiquei
parado enquanto ele se aproximava, talvez eu tivesse escolhido errado, não
importava mais, morreria como um indigente e não faria diferença para o mundo.
Minha salvação veio em forma de apito. A polícia havia, de alguma forma, tido conhecimento da tentativa de invasão. Três guardas e um cão haviam surgido sabe-se lá de onde
e logo tanto eu como o assaltante estávamos no chão, algemados. Minha sorte
parecia não ter mudado muito pois me consideravam outro assaltante.
Foi nesse instante que vi a porta da casa se abrindo e uma sombra surgindo de trás dela moldada pela claridade da luz interior. Ouvi uma voz doce e madura, mas não conseguia ver a dona dela.
Foi nesse instante que vi a porta da casa se abrindo e uma sombra surgindo de trás dela moldada pela claridade da luz interior. Ouvi uma voz doce e madura, mas não conseguia ver a dona dela.
Tiveram uma rápida conversa e em pouco tempo eu estava
livre. Livre e sem rumo novamente. Todavia a dona da voz me convidou para
entrar, o que aceitei de imediato. A casa estava longe de ser luxuosa, mas era
demasiadamente agradável. Seu nome era Marina, Senhorita Marina. Primeiro contou
um pouco de si enquanto me oferecia algo para comer, depois insistiu para que
eu contasse a minha história também.
Por sorte ela não duvidou e sentiu pena de mim (coisa da qual não me orgulho muito), enfim, acabei conseguindo um lugar
para ficar. Fiquei tão agradecido a ela que prometi ajudá-la no que precisar.
No dia seguinte fui com ela até sua loja, uma panificadora
bem pobre que contava com poucos clientes e a situação era péssima. ‘Tempos
difíceis’, senhorita Marina dizia.
Com o tempo nossa afinidade cresceu. Passávamos muito tempo sentados, conversando e bebendo. Como ela amava rum, mas sempre pequenas doses. Realmente nunca a vi embriagada.
Com o tempo nossa afinidade cresceu. Passávamos muito tempo sentados, conversando e bebendo. Como ela amava rum, mas sempre pequenas doses. Realmente nunca a vi embriagada.
Meses depois encontrei receitas de doces, tortas, bebidas e
outras coisas no fundo de um armário. Perguntei à Senhorita Marina por que não fazia outras coisas além
do pão comum e a resposta foi algo como “Falta de dinheiro para comprar açúcar,
carne e os outros ingredientes, além de outros itens para cozinhar, querido”.
Querido... Realmente adorava quando essa palavra saia de sua
boca. Pois bem, no dia seguinte fui em lojas de penhores e vendi meu relógio pela melhor quantidade que consegui negociar. Imagine a surpresa da senhora Marina quando
insisti em anotar o nome de vários ingredientes e, algum tempo depois, apareci
com todos eles em boa quantidade, além do equipamento que faltava.
Vi dúvida, incompreensão, raiva e mais um monte de sentimentos, mas acabou em um grande sorriso de felicidade e gratidão.
Começou quase sem nenhuma venda, mas com os dias havíamos
gasto tudo e tínhamos que comprar mais ‘matéria prima’ para nosso negócio. A
situação estava melhorando.
Os meses se passaram e com eles todos nossos problemas.
Nosso negócio cresceu, reformamos a loja e nossa casa. Sim, nossa. Sem dúvida
estávamos mais próximos e unidos, diria até vivendo uma vida de casal.
De noite dançávamos, sorridentes, até ficarmos cansados, então caíamos no sofá, um encostado no outro, e conversávamos sobre qualquer coisa enquanto, inconscientemente, trocávamos carícias. Esse momento era só nosso, particular, e não queríamos que ninguém soubesse.
O tempo não trouxe perdas, agora tínhamos quatro moças nos
ajudando, pessoas de outras partes da cidade iam atrás de nosso trabalho.
Realmente era delicioso, o que eu mais gostava eram os bolos simples. A vida fora do
trabalho também mudou. Ela se dirigia a mim dizendo ‘senhor’ antes do meu nome,
nos abraçávamos constantemente, principalmente quando chovia. Eu ficava parado
diante de alguma janela, olhando para meu passado e me perguntando se as coisas tivessem sido diferentes eu seria tão feliz como era no momento, logo sentia braços me envolvendo
e um queixo em um de meus ombros.. Algo acontecera entre nós.
Certo dia, quando a agora Senhora Marina não estava, e mesmo
achando errado, vasculhei seus pertences até que achei uma foto antiga de um
homem. Demorou para eu entender que minha companheira era viúva. Arrumei tudo da
melhor maneira que consegui e me deitei na cama pensando sobre tudo. Todas
nossas conversas, passeios, danças, planos e etc.
Minha querida Senhora Marina passou muito tempo na solidão, tentando se manter sozinha em um mundo cruel e perigoso. Acho que estávamos destinados a nos encontrarmos pois, de certa forma, um precisava do outro. Não demorou para
ela chegar e me encontrar ali. Ela se deitou ao meu lado, em silêncio, segurou
minha mão e encostou a cabeça em meu peito. Não havia como voltar: eu era dela
e ela era minha. Acho que posso dizer que foi naquele momento que percebi que
estávamos apaixonados de verdade. Era amor.
Os próximos três anos foram os melhores da vida, mas haviam dores para sentirmos ainda. Era
evidente que ela queria um filho, mas nunca conseguimos ter um, e isso me
incentivava a fazê-la se sentir bem dando amor, segurança, prazer e tudo o que
a minha Senhora Marina merecia.
Porém nada era para sempre e os momentos vão embora, tanto os bons quanto os ruins...
Em uma
tarde minha amada começou a ficar doente. Procurei vários médicos, remédios e
tratamentos mas sua saúde apenas se deteriorava mais e mais. Vi minha querida,
outrora sorridente e amorosa, passar dias e dias presa à cama. Por mais que me
alertassem sobre a chance de contrair essa doença eu nunca consegui ficar longe
dela, mesmo que por pouco tempo. Simplesmente não conseguia!
Eu a alimentava, limpava e fazia de tudo para fazê-la feliz e lhe dar conforto nesta fase de sofrimento.
Mesmo nossos beijos, embora cheios de amor, pareciam estar mortos, mas nunca deixamos de dá-los.
Finalmente, no dia 22 de abril, eu a vi morrer. Pálida e debilitada,
ela me olhou e moveu os lábios, e embora não tivesse saído voz pude ler um
‘sempre te amarei’. Então fechou os olhos e se ajeitou na cama, como se fosse
dormir, finalmente estava morta. Desde então choro todas as noites ao lembrar de
sua voz, seus cabelos castanhos, escuros e ondulados, a forma que andava, seu cheiro, seu
sabor, a textura das diferentes partes de seu delicado corpo...
Minha vida tem se tornado cada vez mais escura e fria. Minha Senhora Marina me completava de uma maneira maravilhosa e, agora, sua falta criou em
meu peito um vazio gigantesco e torturador.
Passei a treinar mais pessoas para nossa loja e a entreguei
para a mais velha e responsável de nossas funcionárias. Peguei algum dinheiro
antes e pedi para um conhecido me conseguir uma arma.
Minha querida Senhora Marina, você morreu com 46 anos. Sim, em meus
trinta anos sinto que não lhe retribuí como merecia. Nestes últimos
tempos juntos não havia problema, mas no começo tivemos que manter nosso
relacionamento escondido, pessoas podem interpretar de formas erradas mesmo que, para alguns, a diferença de classe ou idade não importe.
A dor me corrói há muito tempo e não posso mais viver assim.
Peço perdão à pessoa que tiver que limpar a sujeira que farei.
Marina, você é a melhor coisa que aconteceu comigo, a melhor
parte de mim, minha vida, mas você se foi... Nunca amei outra, você sempre
foi a única. Maldita seja essa doença, poderia ter me matado também!
Não importa, não agora.
Senhor, sei que desaprova tal atitude, mas peço que tenha misericórdia por essa pobre alma que deseja apenas estar com a amada.
Sempre serei seu, minha amada.