quinta-feira, 19 de maio de 2016

O Cofre (incompleto)

     O inverno está chegando, as árvores já estão noticiando como ocorre todo ano. Porém nunca haverá inverno mais poderoso como o que houve nesta era e, quando digo poderoso quero dizer que as energias naturais e arcanas nunca influenciaram tanto nosso mundo quanto nesse. Acredite, sou uma velha "corva" já cega por meu tempo vivido, mas saiba que nasci antes mesmo do sol ser colocado no firmamento e minha ninhada são meus olhos, ouvidos e bico. Para sempre viverei mesmo que o próprio tempo se desfaço e em minha memória guardo todos os horrores deste mundo e de outros, e cada uma das pessoas e monstros que esta terra, fogo, ar ou água já pariu.
     Pois bem, voltemos ao Grande Inverno. Desde cedo aqueles que sabiam onde ver sinais entenderam que este seria um dos fortes, embora ninguém pudesse prever que duraria muito mais tempo que qualquer outro nem as atrocidades que se seguiriam durante as nevascas. A sina de muitos fora decidida nesta época e muitos feitos entraram para os livros de história dos homens, mas estes normalmente são os da Grande Guerra enquanto acontecimentos menos naturais acabam na obscurecida no saber da raça dos homens. Hoje lhe contarei sobre os sacrifícios de algumas mulheres para salvar aqueles que sobreviveram ao inverno mas que, sem elas, pereceriam de fome.
     Foi no Vale Verde, na cidade de Amê. Como em todas as cidades a maioria de seus homens foram convocados para atender à demanda de seu imperador, e tristemente foram pela estrada formando uma longa coluna de pais, irmãos, filhos e netos carregando no ombro uma arma e deixando para trás suas famílias aos prantos. Como em todo o país nesta época de tragédia as mulheres assumiram os lugares antes masculinos chefiando suas famílias e seus empregos, acontecimento que durou sem maiores problemas até o prolongamento do inverno. Amê era uma cidade uma cidade acima de tudo dedicada às coisas que cresciam no solo e até mesmo sua universidade ensinava os alunos a aproveitar melhor a terra, tais disciplinas eram chamadas de botânica, biologia, nutrição e manipulação agrícula.
     Com o prolongamento inesperado do inverno as reservas de comida começavam à diminuir de forma assustadora para os habitantes recolhidos em suas casas.
     Três vezes pediram alimento na porta da faculdade de Amê e nas três vezes o Dr. Peasly, e sua assistente Margarida Holmes doaram o que tinham. Porém a sabedoria do Dr. Peasly o alertara do que aconteceria caso o inverno perdurasse. Ainda tinham energia elétrica para alimentar os aquecedores quando ela resolveu perguntar o que incomodava, pois conhecia os trejeitos do homem que sem sua ajuda se perderia em meio à anotações e horários.

     -No que está pensando, Harry? - utilizar seu primeiro nome sem o título era um direito que conquistara há tempos.

     -O povo está ficando faminto. Temos muito aqui visto que nossas reservas foram planejadas para 300 pessoas em 4 meses de isolação, e somos bem menos que isso. Porém a fome diminui nossa capacidade de raciocínio.
     -Se for o caso vamos separar uma parte boa para nós e dar às pessoas aos poucos. Além de nós dois temos Alice, da biologia, e Doroth, da engenharia, ambas vem de cidades distantes e não puderam voltar para suas casas. Elas podem nos ajudar com estas tarefas.
     -Se a população de fora desta instituição souberem de nossas reservas teremos de ser cautelosos. Podem agir com barbárie. Mas me preocupo mais com o Cofre. - tossiu com força, definitivamente seu corpo estava sendo judiado nesse clima, pensou Margarida.
     -O Cofre? Mas senhor, a comida está no depósito atrás da cantina.
     -Não entende, mulher? Em um frenesi de fome toda a reserva diminuiria e se reduziria a nada em poucos dias. Comeriam sem planejar. Após este breve período de fartura seus olhos se voltariam para os grãos e sementes. Até poderiam comê-los se não fosse esse inverno arrasador. - seus olhos fitavam o nada infinito à sua frente, era para Margarida como se ele revisasse todas as suas memórias de cada um de seus 78 anos vividos.

     A assistente serviu chá quente para seu patrão e esperou com paciência a volta do monólogo do velho professor. Outro acesso de tosse o acometeu de forma tão violenta que Margarida chegou a se levantar para acudi-lo mas o velho ergueu a mão direita com a palma para frente. Levaram alguns minutos até que parasse de tossir e voltasse à falar.


     -Qualquer dia meus pulmões resolverão abandonar meu corpo doente. É bom que você saiba o que fazer caso o pior ocorra. Então preste atenção. Pegue a caixa de madeira que está em baixo da minha cama. - esperou a assistente cumprir sua ordem e, quando ela trouxe o objeto, o pegou sem agradecer e de imediato o abriu, revelando um revólver escuro com coronha de abeto - Você deve manter isto com você o tempo todo. Atire em qualquer um que tentar entrar naquela ala lacrada;

     -O senhor fala de barbárie mas me ordena matar um desesperado por comida... Isto não é de sua natureza. O que tanto teme? - ela colocou um cobertor em suas costas. Seus ossos doíam levemente com as baixas temperaturas, o que era um incômodo leve porém constante.
     -A vida de um servirá para salvar a de muitos. Após este mar de neve passar, se passar, os campos estarão cobertos de vegetação morta, e as fazendas não serão nada além de faixas de terra que fora remexida meses atrás. São estas sementes que temos aqui que florescerão na primavera e alimentarão todos nós. Sem isto muitos que sobreviverem ao inverno morrerão de fome antes de conseguirmos que mudas cresçam alguns dedos acima do chão.

     Margarida ponderava, então fez um sinal positivo com a cabeça e pegou a caixa das mãos ossudas do velho. Em seu íntimo desejava que não tivesse de usá-lo mas entendia a lógica do Dr. Peasly. Aquelas sementes selecionadas cresceriam melhor, seriam mais resistentes e renderiam mais do que as que, por ventura, achassem na terra no início da primavera.



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     Duas luas se passaram quando ela encontrou o velho professor Harry Peasly em sua cama, sem vida. Com lágrimas nos olhos o cobriu por inteiro com seus cobertores. Registrou a data e a hora que o encontrara falecido e anexou ao seu testamento. Ao lê-lo viu que herdara uma pequena propriedade e certa quantia em dinheiro, embora de longe estivesse distante da pessoa que herdara a maior quantia, uma tal de Romena Westerbl, cujo relacionamento com o Dr. Peasly estava entre a amizade e a paixão. Tanto dinheiro para uma amante ou prostituta. Ainda sim, Margarida se sentiu lisonjeada pelo velho ter se lembrado dela. Trancou o aposento e saiu.

     Passou algum tempo sentada olhando para a claridade que passava pela janela embaçada, então foi até o terceiro andar para falar com as duas únicas estudantes que ficaram em seu alojamento. No caminho ela reparara no quão extenso era o reino de silêncio naqueles corredores e em como pareciam haver movimentos nas sombras; Sem perceber começara a sentir medo de ficar sozinha.

     Alice e Doroth, tendo Alice 19 anos e sua colega um ano a mais, dividiam as acomodações desde que ingressaram na carreira acadêmica. Eram moças simpáticas, gentis e estudiosas, mas isso não impedia que fossem mal vistas pelos colegas e funcionários mais tradicionalistas e, de fato, elas não tomaram medidas para ocultar seu relacionamento; No momento em que Margarida subia as escadas Doroth estava deitada e tendo seu cabelo carinhosamente puxados.As duas também tinham prática para se vestir rápido pois poucos segundos após as batidas na porta elas não estavam mais nuas. Com exceção dos lábios vermelhos e bochechas igualmente coradas e seios se destacando em baixo das finas camisas elas poderiam convencer que eram apenas simples colegas de quarto.


     -Senhorita Holmes, bom dia; - Doroth a atendera.

     -Senhorita Darkwind, bom dia. Vim informar que o Dr. Peasly falecera; - seus olhos estavam tristes mas não se via nenhuma lágrima - Provavelmente foi na madrugada de hoje.
     -Nossa... - Doroth nunca fora boa em lidar com o sofrimento alheio e não soube o que dizer.


     Fez-se silêncio por algum tempo que para a anfitriã que a recebera pareceu durar anos, estava realmente constrangida por não conseguir pensar em nada para falar.



     -Tudo bem. - disse, finalmente, Margarida - Vi, lhes fazer um pedido,Posso entrar?

     -Claro, entre. - disse Doroth mas só depois de ter se certificado de que sua companheira de quarto estava devidamente vestida,


     As acomodações dos estudantes eram a parte menos antiga do complexo antigo de prédios que era a faculdade e sensivelmente mais aquecidos. Sentaram-se em cadeiras simples e Margarida explicou a situação para as duas. Ao fim elas se mostraram bem dispostas à cooperar pois entenderam a importância de tudo mais rápido que ela própria.

     Alice Holefall, estudante de biologia e filha de um intrépido escritor, sempre teve um gosto por coisas novas e de se arriscar, mas não desnecessariamente. Lembrou-se de Berenice Parker, costureira com quem mantinha uma amizade simples e sincera. Sabia que ela vivia à algumas quadras da universidade e que provavelmente estaria disposta a ajudá-las em troca de companhia visto que seu marido e cunhado estavam no fronte de batalha.
   
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     Após Margarida concordar Alice se agasalhou devidamente, inclusive com botas e com um manto sobre as costas, e ainda sim, quando saiu sentiu seus ossos tilintarem e seus pés afundarem em, pelo que julgou, trinta centímetros de neve. Os flocos caíam leves mas constantes e uma leve brisa congelante tocava-lhe a face como lâminas à fatiar a carne se suas bochechas.
     Passo a passo suas pegadas desapareciam atrás de si e enquanto caminhava lentamente viu alguém. Não reconheceu pois a pessoa pois estava vestindo grossas peles que lhe cobriam praticamente o corpo todo, em seu ombro trazia um rifle e, pendurado com uma corda na ponta da baioneta duas lebres. Suas barridas estavam abertas e, olhando por certo tempo, viu que ambas estavam congeladas.
     Seguiu por mais algumas ruas sentindo sudeste, passou por um monte de trapos caídos na calçada e chegou, minutos depois, na casa onde Berenice Parker vivia; Bateu na porta aguardou alguns longos minutos, os quais passou tremendo completamente de frio. Finalmente a porta se abriu e uma figura de cabelo cor de ferrugem apareceu.
   
     -Alice? - Berenice abriu a porta, em seu rosto um grande sorriso se formou, revelando dentes tão brancos quanto a neve - Céus! Que surpresa! Não esperava visitas, entre! - segurou Alice pelo braço e a puxou para o pequeno hall da casa.

     Berenice preparou chá antes de ambos se sentarem para conversar Alice explicou a situação da mesma forma que Margarida havia lhe esclarecido e deixou claro a importância de proteger as sementes. A anfitriã pareceu que ia recusar, em sua mente a imagem do marido surgiu e parecia que estava a proibindo, porém um estranho vazia em seu coração e uma inquietação que parecia a perseguir que seria melhor, pois os dias eram longos e as noites mais longas ainda quando se estava sozinha. Demorou vários minutos até aceitar o convite. Alice esperou pacientemente no sofá sorvendo lentamente o chá em sua boca enquanto esperava a amiga preparar suas malas. Nelas haviam muitos agasalhos e toda a comida que pode levar. Esconderam os itens de valor, trancaram a casa e saíram para a rua.

     Caminhavam à passos lentos na neve que subira alguns centímetros enquanto faziam os preparativos da mudança temporária quando passaram ao lado do monte de trapos sujos, mas agora o vento havia feito-o se mover e revelar o que estava por baixo. Por curiosidade Alice se aproximou e descobriu, para seu espanto e desespero de Berenice, o que aquilo era: semi coberto por pedaço de roupas rasgadas e cortadas jazia um cadáver.
     Berenice levou as mãos com o cachecol à frente da boca para abafar o grito que subiu desenfreado por sua faringe e Alice tremeu por completo, porém teve controle suficiente para fechar os olhos e lutar contra o desespero. Sem dizer nada começou a afastar a neve acumulada de cima, revelando uma mulher que aparentava ter menos de 20 anos.
     A estudante de biologia, primeiro, verificou o rigor mortis, para pensar segundos depois que o corpo estava congelado pelas baixas temperaturas. Agradeceu por não ter falado isso e passado vergonha (mesmo que Berenice não percebesse a gafe). Com muito esforço conseguiu tirar a jovem de lá puxando pelos membros enrijecidos. Até então o momento imaginava que havia morrido por hipotermia, todavia apenas isso não explicava as roupas rasgadas. 
     Porém enquanto puxava descobriu que partes estavam faltando: O antebraço direito havia sido arrancado, assim como ambas as panturrilhas, parte de ambas as nádegas, área interna de ambas as coxas e a barriga tinha um buraco do tamanho de um punho fechado, além do seio esquerdo estar desaparecido e o direito parcialmente "devorado" (embora a maior parte dos danos fossem, evidentemente, à lâmina este último estava triturado como se tivesse sido mastigado_ e estava preso ao corpo apenas por uma tira grossa de pele.
     Alice respirava fundo enquanto verificava a descoberta. Estava hipnotizada e só voltou a si quando sentiu, tarde demais para tentar segurar, uma golfada do que foi seu café da manhã escapar por entre seus lábios e sujar o exterior de sua boca, queixo e cachecol que usava para proteger o rosto do vento invernal. Só então percebeu Berenice próxima a ela em choque. Ergueu-se e a virou para o caminho que seguiam até então.

     -Vamos, não nos fará bem ficar aqui. - disse Alice enquanto a guiava rua abaixo.

     -Lobos? - Berenice perguntou, sua voz estava ansiosa e temerosa ao mesmo tempo.
     -Conversamos sobre isso quando chegarmos.
     
     E assim foram. Alice nada disse, mas teve a impressão de ver com o canto dos olhos sombras as vigiando.




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     Margarida e Doroth enchiam pela quarta vez o carrinho do zelador com enlatados, barris pequenos de um destilado de batatas com teor alcoólico baixíssimo e pacotes de carne seca, também vários itens como lamparinas e colchões, um pó que, misturado com água, formava uma espuma não inflamável que podia ser usada para isolar e tapar pequenas frestas e rachaduras. Passaram no depósito que continha todo o equipamento de jardinagem e trouxeram algumas unidades de quase tudo, incluindo ancinhos, pás, foices para colheita, pois jamais excluíram a hipótese de um saque e queriam as ferramentas tanto para o cultivo futuro quando para se defender. Margarida se sentia bem por ter alguém consigo , pois acostumara-se com a presença constante do velho Dr. Peasly e teria muito medo de ficar perambulando só por aqueles corredores silenciosos e recheados de penumbra, e de bônus tinha ajuda para mover todas as coisas.
     Haviam calculado comida para quatro meses de inverno, levando em consideração de que quase dois meses haviam se passado, para todas as quatro pessoas e tinham certeza de que se tomassem cuidado com as porções conseguiriam aguentar até cinco meses e meio. Estabeleceram seus dormitórios no saguão adjacente ao cofre. Eram uma sala vasta com lugar para mais de 40 pessoas. Possuía duas portas de acesso, além de seis grandes janelas de cerca de 2 metros de altura, também haviam armários vazios.
     Em primeiro lugar trouxeram tapetes das salas e quartos mais próximos e estenderam pelo chão no canto leste, depois colocaram colchões por cima e testaram para confirmar o conforto. Após isso espalharam cobertores e mantas de todo tamanho e grossura e travesseiros, e assim o local onde dormiriam estava pronto. A comida, principalmente os toletes de carne seca, foi armazenada nos armários e ao seu redor, em cima deles e encostados à parede. Fizeram uma pausa e foi neste momento que Alice e Berenice chegaram com expressões sérias e passadas rápidas. Alice apresentou a amiga, que tremia de frio e que cumprimentou as novas "colegas de saguão" com um aceno rápido de cabeça enquanto se dirigia para um colchão onde se sentou e ficou abraçada em uma almofada.
     Doroth, preocupada com sua amiga e amante, se apressou a perguntar o que acontecera e ouviu a detalhada mas breve narrativa de Alice.

     -Tem certeza disso? - Margarida tentava manter a compostura mas sentia um terror silencioso acumular-se em sua garganta apenas esperando o momento para escapar em gritos e gemidos.

     -Sim, não há dúvidas para mim. - respondeu a testemunha- Foi um ataque bárbaro contra a jovem. E não, aquelas mordidas não foram feitas por um lobo assassino. - passou a mão pelos cabelos loiros bem penteados e viu Berenice olhar-la com um terror maior ainda nos olhos - Arrancaram locais, tirando o ante braço, que haviam algum depósito de gorduras ou músculo. Um animal não desperdiçaria nada de uma caça.
     -Que seriam... - Doroth pensou e com uma exclamação baixa de surpresa com a conclusão que chegara - ... mais fácil de comer...
     -Não tiremos conclusões precipitadas. - Margarida estava tão chocada quanto as outras mas sabia que o pânico não ajudaria em nada a não ser cometer mais descuidos e até matá-las mais rápido - E não há nada que possamos fazer além de tomar mais cuidado e prestar o dobro de atenção ao nosso redor. Espero que os avisos do Dr. Peasly não se tornem realidade...

     Todas ficaram em silêncio, seus olhares percorreram as janelas e as portas que davam para longos corredores escuros. Naquele momento todas sentiram medo e insegurança.


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Decididas 


O Homem do Saco

Seu nome é Harry mas seu sobrenome ninguém sabe
Passou dos cinqüenta há tempos, mas sua idade é uma incógnita
Sua dieta é restrita, sem boi, peixe ou sem ave
Se você quer descobrir é um tremendo idiota.

Para todas as direções da Rosa dos Ventos ele já foi
Aparecer em dois lugares ao mesmo tempo é sua especialidade
É perigoso para uma criança dirigir a ele um simples ‘Oi’
Pois seu coração é negro e exala maldade

Roupas velhas e cabelo sujo, sapatos esfarrapados
Sobrancelhas grossas e nariz peludo
No cabelo piolhos e na barba carrapatos
Tem a aparência de um mendigo carrancudo

Poderá vê-lo em quaisquer subidas ou descidas
Anda carregando um saco nas costas e uma garrafa na mão
Procura por pessoas sozinhas, demasiadas distraídas
Depois que ele te pegar não adianta gritar ‘Não!’

Ele pega crianças e as leva para becos vazios
Altas e baixas, gordas e magras, preconceito na cabeça dele não entra
Todas servem para seus desejos esguios
Quem imaginaria que de crianças ele se alimenta?

Com uma pedra esmaga suas cabeças
Carne saborosa e cabelo no dente
Com o sangue mantém suas crenças
Acredite, é pior do que qualquer demente


Preste atenção no que digo:
Não deixe outras pessoas acharem que como pai ou mãe você é um fiasco
Lhe digo a mesma coisa que eu disse a um amigo:
Não deixe seus filhos serem pegos pelo Homem do Saco

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Carta de um Suicida Apaixonado

Foi naquela noite de neve e frio que a conheci. Eu era jovem, estava em meus plenos 17 anos. Família... Fui deserdado por não ser o que eles queriam nem pensar da mesma forma. Não tinha nada além da roupa que vestia, um pouco de dinheiro (muito menos do que eu necessitava para me restabelecer) e um relógio de bolso.
Caminhava à toa pelas ruas mal iluminadas de uma cidade que não era minha, nem sequer era próxima, e não conhecia nada por lá. Os passos estavam cada vez mais penosos, parecia que eu carregava duzentos quilos nas costas, mas este fardo imaginário era apenas fadiga física e mental, a neve não perdoa ninguém. Não restava nada além de desistir, mas o destino decidiu me ajudar.

Escutei vozes nervosas e agressivas, logo encontrei dois homens tentando invadir uma casa velha e humilde. Eles brigavam um com o outro enquanto tentavam abrir a porta da frente à chutes pesados. Primeiro relutei, mas logo algo me possuiu, peguei um pedaço de madeira que encontrei encostado num poste e caminhei até o que estava mais perto com ajuda da neve que abafou todos os meus passos. 
Trêmulo, tomei ar e o acertei na nuca com minha arma improvisada. Ele caiu e o chutei algumas vezes, até que minha mente me alertou do outro homem que havia me esquecido por alguns instantes. A madeira havia-se quebrado e não sabia como iria derrubar o outro, e ele acabara me acertando em um dos olhos. Caí para trás pois não estava preparado para me defender e fiquei paralisado enquanto via que o assaltante retirava algo de dentro do casado. Uma faca de cozinha, senti a minha garganta secar. Fiquei parado enquanto ele se aproximava, talvez eu tivesse escolhido errado, não importava mais, morreria como um indigente e não faria diferença para o mundo.

Minha salvação veio em forma de apito. A polícia havia, de alguma forma, tido conhecimento da tentativa de invasão. Três guardas e um cão haviam surgido sabe-se lá de onde e logo tanto eu como o assaltante estávamos no chão, algemados. Minha sorte parecia não ter mudado muito pois me consideravam outro assaltante.
Foi nesse instante que vi a porta da casa se abrindo e uma sombra surgindo de trás dela moldada pela claridade da luz interior. Ouvi uma voz doce e madura, mas não conseguia ver a dona dela.
Tiveram uma rápida conversa e em pouco tempo eu estava livre. Livre e sem rumo novamente. Todavia a dona da voz me convidou para entrar, o que aceitei de imediato. A casa estava longe de ser luxuosa, mas era demasiadamente agradável. Seu nome era Marina, Senhorita Marina. Primeiro contou um pouco de si enquanto me oferecia algo para comer, depois insistiu para que eu contasse a minha história também.
Por sorte ela não duvidou e sentiu pena de mim (coisa da qual não me orgulho muito), enfim, acabei conseguindo um lugar para ficar. Fiquei tão agradecido a ela que prometi ajudá-la no que precisar.

No dia seguinte fui com ela até sua loja, uma panificadora bem pobre que contava com poucos clientes e a situação era péssima. ‘Tempos difíceis’, senhorita Marina dizia.
Com o tempo nossa afinidade cresceu. Passávamos muito tempo sentados, conversando e bebendo. Como ela amava rum, mas sempre pequenas doses. Realmente nunca a vi embriagada.
Meses depois encontrei receitas de doces, tortas, bebidas e outras coisas no fundo de um armário. Perguntei à Senhorita Marina por que não fazia outras coisas além do pão comum e a resposta foi algo como “Falta de dinheiro para comprar açúcar, carne e os outros ingredientes, além de outros itens para cozinhar, querido”.
Querido... Realmente adorava quando essa palavra saia de sua boca. Pois bem, no dia seguinte fui em lojas de penhores e vendi meu relógio pela melhor quantidade que consegui negociar. Imagine a surpresa da senhora Marina quando insisti em anotar o nome de vários ingredientes e, algum tempo depois, apareci com todos eles em boa quantidade, além do equipamento que faltava.

Vi dúvida, incompreensão, raiva e mais um monte de sentimentos, mas acabou em um grande sorriso de felicidade e gratidão.

Começou quase sem nenhuma venda, mas com os dias havíamos gasto tudo e tínhamos que comprar mais ‘matéria prima’ para nosso negócio. A situação estava melhorando.
Os meses se passaram e com eles todos nossos problemas. Nosso negócio cresceu, reformamos a loja e nossa casa. Sim, nossa. Sem dúvida estávamos mais próximos e unidos, diria até vivendo uma vida de casal.

De noite dançávamos, sorridentes, até ficarmos cansados, então caíamos no sofá, um encostado no outro, e conversávamos sobre qualquer coisa enquanto, inconscientemente, trocávamos carícias. Esse momento era só nosso, particular, e não queríamos que ninguém soubesse.
O tempo não trouxe perdas, agora tínhamos quatro moças nos ajudando, pessoas de outras partes da cidade iam atrás de nosso trabalho. Realmente era delicioso, o que eu mais gostava eram os bolos simples. A vida fora do trabalho também mudou. Ela se dirigia a mim dizendo ‘senhor’ antes do meu nome, nos abraçávamos constantemente, principalmente quando chovia. Eu ficava parado diante de alguma janela, olhando para meu passado e me perguntando se as coisas tivessem sido diferentes eu seria tão feliz como era no momento, logo sentia braços me envolvendo e um queixo em um de meus ombros.. Algo acontecera entre nós.

Certo dia, quando a agora Senhora Marina não estava, e mesmo achando errado, vasculhei seus pertences até que achei uma foto antiga de um homem. Demorou para eu entender que minha companheira era viúva. Arrumei tudo da melhor maneira que consegui e me deitei na cama pensando sobre tudo. Todas nossas conversas, passeios, danças, planos e etc. 
Minha querida Senhora Marina passou muito tempo na solidão, tentando se manter sozinha em um mundo cruel e perigoso. Acho que estávamos destinados a nos encontrarmos pois, de certa forma, um precisava do outro. Não demorou para ela chegar e me encontrar ali. Ela se deitou ao meu lado, em silêncio, segurou minha mão e encostou a cabeça em meu peito. Não havia como voltar: eu era dela e ela era minha. Acho que posso dizer que foi naquele momento que percebi que estávamos apaixonados de verdade. Era amor.

Os próximos três anos foram os melhores da vida, mas haviam dores para sentirmos ainda. Era evidente que ela queria um filho, mas nunca conseguimos ter um, e isso me incentivava a fazê-la se sentir bem dando amor, segurança, prazer e tudo o que a minha Senhora Marina merecia.
Porém nada era para sempre e os momentos vão embora, tanto os bons quanto os ruins...

Em uma tarde minha amada começou a ficar doente. Procurei vários médicos, remédios e tratamentos mas sua saúde apenas se deteriorava mais e mais. Vi minha querida, outrora sorridente e amorosa, passar dias e dias presa à cama. Por mais que me alertassem sobre a chance de contrair essa doença eu nunca consegui ficar longe dela, mesmo que por pouco tempo. Simplesmente não conseguia!
Eu a alimentava, limpava e fazia de tudo para fazê-la feliz e lhe dar conforto nesta fase de sofrimento. Mesmo nossos beijos, embora cheios de amor, pareciam estar mortos, mas nunca deixamos de dá-los.

Finalmente, no dia 22 de abril, eu a vi morrer. Pálida e debilitada, ela me olhou e moveu os lábios, e embora não tivesse saído voz pude ler um ‘sempre te amarei’. Então fechou os olhos e se ajeitou na cama, como se fosse dormir, finalmente estava morta. Desde então choro todas as noites ao lembrar de sua voz, seus cabelos castanhos, escuros e ondulados, a forma que andava, seu cheiro, seu sabor, a textura das diferentes partes de seu delicado corpo...
Minha vida tem se tornado cada vez mais escura e fria. Minha Senhora Marina me completava de uma maneira maravilhosa e, agora, sua falta criou em meu peito um vazio gigantesco e torturador.
Passei a treinar mais pessoas para nossa loja e a entreguei para a mais velha e responsável de nossas funcionárias. Peguei algum dinheiro antes e pedi para um conhecido me conseguir uma arma.
Minha querida Senhora Marina, você morreu com 46 anos. Sim, em meus trinta anos sinto que não lhe retribuí como merecia. Nestes últimos tempos juntos não havia problema, mas no começo tivemos que manter nosso relacionamento escondido, pessoas podem interpretar de formas erradas mesmo que, para alguns, a diferença de classe ou idade não importe.
A dor me corrói há muito tempo e não posso mais viver assim. Peço perdão à pessoa que tiver que limpar a sujeira que farei.
Marina, você é a melhor coisa que aconteceu comigo, a melhor parte de mim, minha vida, mas você se foi... Nunca amei outra, você sempre foi a única. Maldita seja essa doença, poderia ter me matado também!

Não importa, não agora.
Senhor, sei que desaprova tal atitude, mas peço que tenha misericórdia por essa pobre alma que deseja apenas estar com a amada.


Sempre serei seu, minha amada.

domingo, 31 de janeiro de 2016

James e sua esposa morto-vivo


Você já teve um relacionamento com um morto-vivo? Não estou dizendo aqueles seres sedentos de carne, altamente irritantes como os que voltam por maldição, os feiticeiros necromantes ou mesmo os carniçais mais poderosos! Estou falando de uma pessoa que morreu e voltou à vida (continuam mortos, mas andam, falam, etc), seja por sem que tenha qualquer ligação com forças arcanas.  Com James aconteceu algo assim e, infelizmente, a pessoa em si era sua esposa, Christine.


Foi em um dia ensolarado, com um assalto junto de cheiro de pólvora se espalhando pelo ar e um corpo ao chão no final de tudo. James e Christine haviam saído em um passeio para comprar gim, temperos e outras coisas variáveis, quem imaginaria que tal atrocidade ocorreria? De qualquer forma James havia se tornado viúvo, o enterro seria em quatro dias e seu caixão se encontrava na sala de visitas da casa onde viviam.

Na noite posterior James ouviu o barulho de algo grande sendo tombado, então pegou sua arma e, com cautela, desceu para averiguar. Qual não foi sua surpresa ao encontrar Christine na cozinha, comendo uma maçã.

-O leiteiro não passou hoje, querido? – perguntou ela após engolir o pedaço que mastigara, mas seu marido não respondeu nada.

A confusão foi enorme e demorou horas para fazê-la começar a entender. Por incrível que pareça ela não se surpreendera. O buraco da bala ainda era visível em seu pescoço, quando ela engolia dava para ver a comida descendo!
Como aquilo acontecera? Como explicaria para outras pessoas? Eram tantas as perguntas.. Em dois dias a cabeça de James estava o torturando pois tentava evitar que outras pessoas vissem sua esposa, até mesmo fechou o caixão alegando que a dor da perda era tamanha que não suportava vê-la ali. Mas logo outras coisas ocorreram.
Faltando um dia para o funeral, enquanto descia as escadas, Christine tropeçou por causa do salto de seu sapato que quebrara e rolou escada a baixo. Um barulho alto soou e James a encontrou com cabeça virada em um ângulo errado, constatou que o pescoço estava quebrado. Ela não se movia, parecia estar morta...

No dia do funeral estava tudo arrumado, Christine estava em seu caixão e o padre já havia chegado. Não percebera o pescoço fraturado por conta de um cachecol branco que James colocara para "adorna-la". Logo os amigos e familiares iriam chegar e ninguém saberia do ocorrido.
O padre havia ido ao quarto de hóspedes para vestir a roupa adequada para a ocasião e por isso não ouviu o bocejo vindo da sala principal e a queixa de um torcicolo. James, por sua vez engasgou com o café ao ver sua esposa saindo do caixão e perguntando o porquê de estar acordando ali novamente.
James largou o copo e se desesperou, e se o padre a visse? Embora James não entendesse, não achava aquilo de todo mal, mas o que um padre diria? Toda a preocupação vinha do medo da reação que outras pessoas teriam ao vê-la.

Decidiu que o padre tinha que sair! Sem dar um motivo fácil de entender eles expulsou o padre de sua casa, trancando o portão, as portas e as janelas.
Christine tinha encaixado de tal forma seu pescoço que ele poderia andar sem precisar segurar sua cabeça, embora bem torto e um tanto arrepiante.
James ouvia os convidados se aglomerando à frente de sua casa algum tempo depois. Estavam preocupados e o padre dizia que ele estava tendo algum tipo de crise, mas James não se importava com isso. Estava sentado em sua poltrona, trêmulo e pálido, Christine estava na cozinha, preparando almoço.
Poucos minutos se passaram quando um grito ecoa, vindo da cozinha. James correu chamando a esposa e a encontrou caída no chão. A panela estava queimando ardidamente com gordura de baleia em muita quantidade e sua Christine no chão, com o cabelo chamuscado e a pele do rosto e mãos derretida. Os olhos ficaram brancos, o nariz meio aberto e os lábios na carne ‘viva’. Parecia estar morta, mas em pouco tempo ela se levantou e voltou a fazer seus afazeres domésticos.

-Perdão, querido. - disse ela - Não vi que havia colocado demais, acho que minha vista não está tão boa.. Deve ser por causa dessa dor no pescoço.

Daí em diante as coisas só pioraram, e James ainda tentava entender se estava realmente vivendo aquilo ou era apenas um sonho insano.
Durante o tempo que se seguiu o estado de Christine apenas piorou. Ela cortou o dedo indicador enquanto picava cenouras com uma faca afiada, tropeçou no banheiro e rachou o crânio no chão com direito à uma depressão em sua têmpora esquerda, rasgou seu braço num prego, costurou um tecido em si mesma quando consertava uma peça de roupa pois estava com dificuldade de manejar a agulha sem o indicador. Dado momento os convidados tentaram invadir e James teve que afugentá-los com sua arma, disparando para cima enquanto gritava palavras como "Me deixem em paz!" e "É melhor vocês não entrarem! É para o bem de todos!". Pois bem, Christine foi guardar sua arma, uma espingarda de dois canos, que acabou disparando acidentalmente e abrindo um grande buraco em sua barriga, por onde seus intestinos, com a coloração de um coágulo, ficaram pendurados. Parecia que quem voltava dos mortos tinha o azar multiplicado por mil, tamanha a quantidade de suas desgraças que acometeram a pobre esposa dedicada.

Finalmente James chegou a seu limite, embora sua esposa entendesse que era uma pessoa morta que voltara à vida, ele não conseguiria viver assim por mais tempo. Colocou os canos da arma na boca e puxou o gatilho. Seus miolos se espalharam na parede mas Christine não se importou pois pensava que, como ela, seu marido retornaria.
E por ali ficou por muito tempo e ainda está lá. Pessoas tentaram entrar e algumas conseguiram, mas logo que encontravam Christine se desesperavam. Nem a polícia nem o clero conseguiram resolver isso, e fogo, tiros ou golpes de lâminas e martelos também não a mataram. A casa foi fechada e dada como má assombrada.


E lá fica Christine, a esposa dedicada que espera seu querido marido retornar dos mortos...